Jovem enfrentou 30 cirurgias e usou as aulas no hospital como ‘remédio’ para vencer o câncer

Diagnosticada com um tumor cerebral aos 6 anos de idade, Ana Clara, hoje com 18 anos, carrega na memória um momento marcante: o dia em que cruzou com seu professor de matemática nos corredores do Hospital do Graacc.

O encontro inesperado aconteceu em meio a uma rotina severa de tratamento enfrentada pela jovem, que já passou por 30 cirurgias, além de inúmeras internações e sessões de quimioterapia na instituição.

Estava, à ocasião, no 3º ano do ensino fundamental, e falou ao professor sobre uma dificuldade que tinha com a multiplicação.

Na mesma hora, entre uma consulta e uma aplicação de medicamentos quimioterápicos, teve uma aula e entendeu como resolver contas de multiplicar com dois dígitos.

Ana Clara Martinez Blecha participa neste sábado da formatura do ensino médio de pacientes do Graacc, referência no tratamento de câncer infantojuvenil, localizado na Vila Clementino, zona sul de São Paulo.

Dos oito formandos, ela é aluna com mais tempo de vínculo com a Escola Móvel, projeto que garante a continuidade do estudo durante as internações e o tratamento.

A escola não substitui a matrícula nas instituições regulares, mas realiza um trabalho paralelo, dando sequência ao aprendizado quando o aluno está no hospital.

Formação dos docentes

Os professores são formados em atendimento escolar hospitalar e adaptam os materiais didáticos e as aulas para cada paciente. Desde 2000, quando foi fundada, a iniciativa já atendeu mais de 6.000 crianças e adolescentes.

Ana Clara começou as aulas logo que teve o diagnóstico. No primeiro ano, passou por dez cirurgias. Após a primeira, perdeu a visão.

“Fiquei muito ansiosa, querendo que ela já aprendesse braile”, conta a mãe, Lívia, 45. “Mas o pessoal da Escola Móvel me falou: ‘Calma, vamos devagar, isso pode se reverter’.”

A menina ficou no hospital quase o ano todo e, pelos primeiros quatro meses, permaneceu sem enxergar. As aulas não paravam.

“Lembro que os professores liam livros para mim, e a gente conversava sobre as histórias”, diz Ana Clara.

Fases críticas

Nos momentos mais difíceis, conta a jovem, as aulas eram como um remédio. “Eu pedia para ter aula o dia inteiro”, diz.

“Isso me trazia um respiro, me ajudava a passar por aquela dor ou por aquela situação de uma forma mais leve.”

Com o início da quimio, a visão foi voltando, mas a mãe sabia da possibilidade de uma piora. Ao ver Ana Clara olhando para o céu maravilhada porque estava conseguindo enxergar as estrelas, Lívia conversou com ela sobre o risco de que perdesse definitivamente a visão.

“Não tem problema, mamãe. Eu vou continuar enxergando com os olhos do coração”, ela respondeu, segundo a mãe.

Ana Clara foi alfabetizada nesse período – além da Escola Móvel, teve ajuda da avó Rosa, que é professora. Quando voltou para a escola regular em sua cidade, Mogi das Cruzes (Grande SP), estava à frente da sua turma no aprendizado.

Nesses anos todos, não teve nenhuma repetência. Ao contrário, sempre foi uma aluna nota 10, extremamente participativa.

Em internações durante a pandemia, fazia as aulas online da escola regular pela manhã e as da Escola Móvel à tarde.

Em 2022, o tumor, que estava estável havia três anos, voltou a crescer. Ana Clara teve uma piora rápida e foi internada praticamente em coma. Passou por uma cirurgia de mais de dez horas.

Pós-operatório

No pós-operatório, mesmo muito debilitada e sem interagir, tinha aulas. Por vezes, fechava os olhos, mas os professores seguiam falando com ela. A mãe perguntou se fazia sentido continuar.

Um professor lhe respondeu que sim, que havia relatos de pacientes que, quando melhoravam, demonstravam ter absorvido o que havia sido dado nessas fases mais duras.

Foi o que aconteceu. Depois da cirurgia, em março, ela foi recuperando a visão, teve que reaprender a andar, a falar e até a sorrir. Mas conseguiu voltar para a escola e se formar no 9º ano, com o conteúdo em dia.

Das tantas aulas no hospital, ela se recorda, em especial, das de ciências. “A professora passava a matéria, a gente ia fazendo as atividades, mas também conversando sobre outras coisas, até sobre filmes e séries.”

A missão da Escola Móvel, de acordo com o coordenador, Edmar Silva, “é garantir ao paciente o direito à educação, e a uma educação integral”.

“É uma criança, é um adolescente, não é um tumor. São pessoas que, porventura, estão tratando de um câncer, mas que têm todo um universo que vai além da doença”, explica.

Em 2024, a visão de Ana Clara voltou a piorar – hoje ela tem visão residual. No ano passado, ela fez a prova do Enem no hospital, graças a um programa da Escola Móvel e do Inep (responsável pelo exame). Teve o auxílio de uma pessoa para ler as questões e de outra para escrever as respostas ditadas por ela.

A jovem segue fazendo quimioterapia, e sua mãe conta que, agora, a batalha é conseguir judicialmente acesso pelo SUS a um medicamento experimental específico para esse tipo de tumor, cujo custo pode exceder R$ 150 mil por mês.

No fim do ano, Ana Clara fará novamente o Enem no Graac. Quer cursar psicologia e trabalhar em hospitais. Para ela, a educação é “uma janela aberta”. “A gente precisa ter coragem para pular essa janela e conhecer o mundo.”

*com informações de Laura Mattos/folhapress

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