Relato Nordestino – Por Felipe Martins

Sou nordestino, paraibano, nascido em Monteiro, no Cariri da Paraíba, filho de uma professora e de um caminhoneiro, ambos trabalhadores e empregados, mas isso nunca significou uma vida de abundância, naquele tempo o dinheiro era contado, pois, nos anos 80 e 90 os direitos trabalhistas já existiam, mas a fiscalização era muito limitada e, muitas vezes, ineficiente, era comum o trabalhador ouvir dos patrões aquele velho argumento “Se você não quiser esse trabalho, outro virá para o seu lugar” era assim que naquele tempo muitos aceitavam os baixos salários.

Apesar das dificuldades, graças a Deus e ao esforço dos meus pais, alimento nunca faltou dentro de casa, pelo contrário, era abundante, o lazer? era raro, roupas e calçados novos? uma ou, no máximo, duas vezes por ano, brinquedos? Quando dava para comprar, eram os baratinhos, mas a gente nem ligava tanto, também havia os brinquedos que ganhávamos e aqueles que nós mesmos construíamos com latas, caixas de papelão, pedaços de madeira e tudo aquilo era diversão.

Tínhamos televisão, mas a programação daquela época não nos prendia o dia inteiro só na hora dos desenhos, não havia internet e nem celular e por isso o tempo sobrava, a rua ou a casa de um amigo ali próximo era suficiente para fazer daquele tempo uma infância feliz.

Mas crescer no Cariri paraibano também me permitiu testemunhar uma realidade muito mais dura do que aquela vivida dentro da minha própria casa e de minha realidade, eu vi de perto o sofrimento de muitos nordestinos não só na minha rua que era em um bairro pobre, mas especialmente das pessoas que viviam na zona rural naquela época.

Lembro-me de quando, ainda criança, acompanhava meus pais até um pequeno sítio que ficava a menos de um quilômetro da nossa casa, praticamente dentro da zona urbana de Monteiro, meus pais levavam alguns alimentos e passavam alguns minutos conversando com aquelas duas senhorinhas que moravam ali eu Já não me lembro dos nomes delas, mas, jamais esqueci as condições em que viviam, era uma pequena casa de taipa, sem água encanada e sem energia elétrica e a iluminação vinha de um simples candeeiro de querosene pendurado na parede.

Naquele tempo a dificuldade para conseguir água, ter energia elétrica, transporte e, consequentemente alimento, fazia parte da realidade de muitas famílias da zona rural e urbana em nosso município e de tantos outros lugares do Nordeste, também me lembro das visitas que fazíamos a alguns parentes do meu pai na cidade da Prata, município vizinho a Monteiro mais especificamente na comunidade rural chamada Sítio do Melo, meu pai tinha e ainda tem alguns parentes por lá, certa vez, chegando à casa de uma desses parentes, lembro-me de uma senhora, uma tia do meu pai, que, ao nos receber, perguntou, com toda a simplicidade e gentileza, se queríamos comer alguma coisa, na ocasião ela oferecia aquilo que tinha, era uma espécie de papa grossa feita de leite, farinha e açúcar, na minha inocência de criança, eu não entendia aquela comida e até achava engraçado a maneira como ela perguntava se queríamos o tal “pirão de doido”, hoje, adulto, eu entendo, aquela senhora estava oferecendo pra gente o que tinha de melhor e, por trás daquela simplicidade, existia algo muito maior, existia a FOME e ela estava compartilhando conosco aquilo que tinha para se alimentar, eu cresci vendo essas coisas.

Conheci pessoas que viveram e morreram sem ter acesso a coisas básicas como água encanada, energia elétrica e transporte adequado, naquele tempo as pessoas andavam em carro de boi, jumento, cavalo ou em uma bicicleta por quilômetros e mais quilômetros, tendo em vista que Monteiro é a maior cidade da Paraíba em extensão territorial. Era gente com enorme dificuldade para colocar comida na mesa, vi muito também a migração para São Paulo, tive tios que fizeram isso, foram buscar simplesmente uma oportunidade de sobreviver e trabalhar era uma esperança de ganhar um pouco mais naquela época, o ônibus da empresa Penha, partia de Monteiro para São Paulo, eram cinco ou seis dias de viagem, levando muita gente e trazendo tantas outras que não conseguiam ter sucesso lá, tinha e tem até hoje um bordão muito famoso por aqui, quando você quer que alguém se afaste de você e só dizer, amigo! Pegue a Penha.

E é justamente por ter vivido e testemunhado aquela realidade que consigo perceber uma mudança profunda nas últimas décadas e desde o início dos anos 2000, comecei a perceber uma transformação que, para quem conhece a história do Nordeste, é impossível ignorar, não estou falando que a pobreza acabou, não, não acabou! Ainda existem dificuldades, desigualdades e famílias que precisam de muito apoio, mas a realidade mudou.

E só mudou através de programas de transferência de renda, com a expansão do acesso à educação, com políticas de apoio à agricultura familiar, com a construção de milhões de cisternas, com investimentos em infraestrutura e com a chegada de água através da Transposição do Rio São Francisco dentre muitas outras políticas públicas e investimentos que deram um sentido ao nordestino de permanecer lutando e vivendo por aqui mesmo.

Também mudou o acesso à universidade, filhos de pobre e de agricultores, trabalhadores rurais e famílias humildes passaram a ocupar espaços que, durante muito tempo, pareciam reservados apenas para uma pequena parcela da população.

O Nordeste continua tendo problemas, a pobreza ainda existe, a miséria a fome e o desalento de não enxergar uma saída para sobreviver, esses já não existem mais, é preciso reconhecer que milhões de nordestinos passaram a viver com mais dignidade, mais acesso à água, à alimentação, à educação, ao crédito e às oportunidades e eu não falo isso apenas por ouvir falar eu falo porque vivi uma parte daquela realidade e, principalmente, eu me lembro de onde viemos, por isso, quando olho para o Nordeste de hoje e comparo com aquele Nordeste da minha infância, vejo uma transformação que não pode ser ignorada.

Foi isso que eu vi acontecer, e, para quem nasceu e cresceu no Nordeste, esse texto não é apenas uma OPINIÃO política, são fatos, é realidade e é também uma lembrança de quem viveu para ver essa mudança.

E é por isso que digo, sem medo e sem receio algum:

Lula mudou a vida de milhões de brasileiros.

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